lunedì, luglio 16, 2007

portão lateral de pizzaria no bairro da Moóca, em São Paulo
mera coincidência ou estava escrito nas estrelas?

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fotografia & texto por Rebecca Navarro Frassetto

A cabeça anda cheia de nomes impossíveis de decorar. Quando me acostumo com a graça de um dos bacanas que tem feito estardalhaços neste país logo aparecem outros. Que não bastasse serem muitos vêm sempre com seus respectivos apelidos. O que não deu pra ver até agora foram cabeças rolarem. Não vi. Mas já era pra ter visto. Ao invés disso, vi o Senador Renan Calheiros, bem sucedido pecuarista, ao lado do Lula com a tocha do Pan como se não houvesse nada melhor pra fazer do que segurá-la (ao menos devia estar quente feito a batata que eles têm jogado de um lado pro outro) num evento que custou mais do que estava previsto e teve suas obras atrasadas pra 3º mundo nenhum botar defeito. Vi o conselho de ética do Senado, comandado pelo suplente da Marina Silva, Sr. Sibá Machado e depois pelo questionável Leomar Quintanilha, com o rabo entre as pernas. O relatório do arquivamento do caso Renan sempre prestes a ser votado. Dias e mais dias sem alguém pra assumir a relatoria depois de Epitácio Cafeteira e Wellington Salgado terem desistido.
Vi o tetra-governador do Distrito Federal, (agora pelo menos e graças aos deuses) ex-senador, Joaquim Roriz, pedir sua renúncia pra sair de fininho após terem flagrado uma conversa onde ele repartiria o troco (de um milhão e novecentos mil reais) com algumas pessoas para então continuar pedindo votos ao povo com a forcinha de Nossa Senhora. Vi o Suplicy querendo fazer jus a minha dignidade mas, claro, impedido pelo partido (qual mesmo?) porque dignidade limitou-se às definições do Aurélio, pai dos burros.
Explicado! Afinal de contas enquanto o Lula teve dores de cabeça neste último mês, de um lado graças à imprensa malvada que só sabe falar mal deste país carente de elogios (de educação, segurança, proteína, cálcio e sais minerais) e do outro às acusações de seu (dele...) irmão fazer parte dos esquemas da operação xeque-mate que ficou esquecida como se fosse um joguinho de damas qualquer. Além de ter se perguntado como foi aceitar ser padrinho do filho do cabeça no crime das máquinas caça-níqueis (literalmente).
Figurinhas outrora tão comentadas como Zuleido Veras não pagaram por seus crimes e andam escrevendo cartas aos ex-antigos clientes que, convencidos, seguirão em frente em seus negócios-bomba. Porque o ilegal dá direito à impunidade, corriqueira no país do Cristo-Maravilha. Dá direito a furar fila no embarque do aeroporto e a travar as votações de interesse da Nação. É a impunidade que salva cabeças como do José Dirceu, Delúbio Soares, Valdomiro Diniz, com o perdão da palavra Paulo Maluf, Celso Pitta e tantos outros que hoje devem apenas debochar da nossa cara enquanto brindam sua inocência – BINGO! - em todos os cantos desse país do carnaval corrupto, véio e sem porteira que por dados históricos comprova: a justiça nunca puniu um político sequer.
E nem precisa entender muito do assunto pra ver como o ilegal é bacana no Brasil. Vem do lado de fora da porta, no balcão do boteco, entre uma conversa e outra, vira e mexe alguém por perto sempre grita DEU VACA (25 – 500 – dois milhões e duzentos), NA CABEÇA! Agora, ELES devem sair de férias. Exaustos. Feito você e eu. Repousemos neste inverno globalmente aquecido enquanto a chuva não vem. Façamos as contas de quantos remédios pra dor-de-cabeça poderíamos comprar com os 54 bilhões desviados nos últimos quatro anos. Encosta tua cabecinha no meu ombro e relaxa.

domenica, luglio 15, 2007

collage Barrox, 1997 texto & fotoGrafia de capa edição #53, julho-agosto 2007

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"Você me diz isso porque não mora no Brasil", diz o cara esquisito com aquele ar entre o arrogante e o inseguro que os sujeitos daqui acharam de encarnar pra parecerem artistas quando vão beber cerveja não tão gelada assim nos botequins careiros - a maioria ruins e de péssimo atendimento - da vila madalena.
que, por sua vez, virou uma merda com seus prédios de arquitetura fake de ‘alto-padrão’, lojinhas metidas a besta e peruinhas de cara afetada.
sim, é verdade, não moro (mais) no Brasil. tenho pensado em deixar de ser oficialmente cidadão, já que de fato não sou visto assim, nem pelos ‘concidadãos’ e muito menos pelos caras que estão no poder. aliás tenho dúvidas sobre onde teria nascido. aqui é parece mesmo não ter sido.
o que eu disse pro cara?
que apesar de passar o dia inteiro aturando poetas de rua, auto-marginalizados e escritores ditos malditos com livros capengas à venda por cinco reau, não vejo contornos de nenhuma puta energia artístico-literária. parecem mais carinhas assim meio sem dinheiro a fim de catar menininhas (ou outros menininhos) burguesinhas(os) a fim de umas emoçõezinhas baratas de fim-de-semana.
em resumo, querem a melhor relação custo-benefício na hora de foder, se é que conseguem, o que lhes custa no mínimo a dignidade.
e olha que nem abri a boca pra falar da chamada cultura oficial, esta já morta e enterrada faz tempo. quer dizer, não entendo como você - digo isso olhando pra cara do cara - pode se achar poeta marginal/independente/sei lá, se ganha dinheiro das repartições ‘oficiais’, se vive pedindo dinheiro pras repartições oficiais.

ou não. ou sei lá, afinal de contas não quero ter razão.
o que acho engraçado é o sujeito que - por força do cargo que ocupa - devia saber de tudo sempre nos repetir sempre sempre sempre ‘ah! que legal, não conhecia este jornal’.... cara! você é do governo, contratado pelo povo e quem te paga o salário (em tese) sou eu (mas talvez ele nunca se dê conta disso também).

na praça, onde meu trabalho tá espalhado, encontro a escritora.
ela (essa escritora) é feia (mas também conheço algumas bonitas), meio carrancuda, magra, esquisita e se veste de um jeito estranho também e tá com uma menina mais jovem que ela.
usando a linguagem dos folhetins do século XIX, é uma menina voluptuosa - tipo peitão, bundona, coxas grossas - mostrando tudo debaixo da saia curta quando senta no degrau em frente à barraca do autor na praça, me olhando meio de lado, ora dizendo com os olhos que quer (me) dar, ora mostrando que tem dona.
fotografo as duas. em fotogramas separados, claro.
a escritora mantém-se inflexível em seu olhar de celebridade-não-percebida-pela-crítica-internacional, em que pese ser praticamente inédita - mal conhecida até pela própria família - e me vê com um certo desdém tipo assim de quem esperava encontrar o editor, sei lá, do niuiórquitaimes mas mesmo assim irá conceder parte de seu tempo a me ouvir fazer elogios ao seu trabalho. ou coisa assim.
tenho vontade de lhe dizer que não curto seus textos (o que, óbvio, não impede que sejam bons e coisa e tal; afinal eu é que nem entendo de Literatura, pôrra), que - enfim - acho que é chata e que talvez devesse ler mais e escrever menos, melhorar a qualidade e/ou intensidade. E as noções de gramática...
mas isso é só uma opinião muito pessoal e desprovida de qualquer motivo lógico.
afinal, mostro-lhes ludicamente a fotografia feita na telinha da digital, sorrio pra gostosona confrontando o implacável olhar da escritora e viro as costas quando ela folheia meu jornal nervosamente com a cara emburrada que a caracteriza.
ou melhor, só irá sorrir se aparecer alguém realmente ‘importante’. mas isso é outra história.
o cara vem me falar de novo: - "mas você também não mostra nada nessa pôrra de jornal. é bonito, reconheço, mas falta conteúdo".
penso comigo o que será que ele quer dizer com falta conteúdo, ou melhor já sei, mas mesmo assim penso e penso também que esse papo de dizer falta conteúdo é uma frase feita da pior qualidade possível, principalmente dita por um sujeito absolutamente sem conteúdo (ops); que não sou um cara que sai do estúdio pra lamber saco dos agregados do secretário da (in)cultura ou coisa que o valha, ou mendigar verbas nos gabinetes desse poder ditatorial fajutíssimo e absolutamente corrupto que ainda não acabou aqui na republiqueta, ou também não fico mendigando pixulés vendendo essas porcarias mal impressas ou chamando menininhas de putinhas porque, sei lá, talvez até gostem de poesia mas...
ou coisa assim (de novo).
mas não digo nada; não adiantaria, eu acho..
eu penso; eu sempre penso, até quando não parece que estou pensando.

são paulo é uma merda de cidade.
quer dizer, é bacana e cosmopolita também.
mas é uma merda quando chove, quando faz muito sol, quando tem muito trânsito ou quando os caras querem fazer ela parecida com niuiórque, fode tudo. niuiórque também é ruim se você não tem grana e não é amigo, vizinho, sei lá, do woody allen ou da yoko ono.
ou é boa, dependendo do boteco onde vai tomar cerveja.
a cidade (de São Paulo) é esquisita.
caras buzinam o dia inteiro na oscar freire.
quase sempre tenho que manter as janelas do estúdio fechadas pra suportar o barulho.
o que também fode tudo, porque detesto ar-condicionado; curto vento na cara e natureza...
na rua, pessoas passam e se enfrentam sem se olharem, esbarram-se agressivamente; se estão de carro escondem-se atrás dos vidros pretos e buzinam, buzinam, buzinam loucamente.
"deve ser porque têm a mãe na zona", me diz com um sorriso largo o carinha de roupa simples indo pro ponto de ônibus. "coisa de recalcados, talvez", se vai rindo sozinho da própria piada e digno depois de um dia de trabalho.
são poucos os que realmente trabalham nessa cidade de farsantes.

ah, sim, eu dizia! os escritores; os artistas.
É lógico que isso não se aplica a todo mundo (err... de novo) e pode ser só uma impressão meio ácida, mas parece que se bastam se ficam parecidos com alguém que viram na tv ou em algum desses filmes chatos que o primeiro mundo nos manda em lugar dos antigos colares de contas coloridas trazidos pelos invasores brancos a fim de enrabar as nativas.
E ficam essas pessoas me falando com muita naturalidade palavras como loft, fashion, dark, interface, stylish (sic)... apresentam-se - ops, fazem performances - nas ruas auto referenciando-se como clowns e usando bolas vermelhas ridículas no nariz.
sim, sim; em ‘sampa’ - como sempre fazia questão de referir-se à cidade uma recepcionista com cara de putinha - o hábito faz o monge.
principalmente se for à noite e em algum desses botequins que entram e saem rapidamente da moda..

no começo da noite a escritora feia me telefona. "você vai publicar meu texto e minha foto?", pergunta. digo que não sei, ou brinco dizendo que só faço isso se ela sorrir na próxima vez, na praça. ela parece decepcionada, diz "tá", mas só se você colocar meu texto no seu jornal.
seria legal se ela pudesse entender essas coisas de critérios, mas também não dá pra explicar tudo o tempo todo.

desligo.
tomo uma taça de vinho tinto, acho cds de Chet Baker, Hendrix e músicas gostosas e vou preferir olhar nos olhos de quem amo.

EduardoBarrox, editor do Jornal da Praça


ph Barrox, 2007
locação Brechó Cheiro de Amor,
Vila Madalena, SP
Domínio

Te fico de quatro
amordaçada
na fantasia liberada
dos teus sentidos.
Palavras?
apenas promíscuas
e aos sussurros
em meus ouvidos.
Despe de mim
com o olhar apenas
teu desejo.
Me faz meretriz
Te faço guerreiro.
Invade meu cheiro
de calor
Veste meu corpo
de saliva
pincel de língua.
Depois...
Enlouquece de amor
da dor
do meu dente cravado em tua pele.
Tua mão
segurando meu cabelo
com a força animal
de um homem poderoso
que se desmancha em gozo
num gemido.
E então,
deita tua cabeça no meu colo
encosta tua boca no meu seio
e volte a ser menino!


CéliaLadeira
poema publicado na edição # 53 do Jornal da Praça
ph Barrox, Viradouro, SP, jun2007
Tarô
do Jornal da Praça
julho 2007

Arcanos 13, 18 (inv.) e 10. Síntese 5. Excelente. Os Arcanos extremos são complementares entre si e o do meio é complementar do Arcano da síntese. Aproveitem o momento para ousar fora dos parâmetros habituais. Os arcanos implicam um enraizamento significativo, uma certa solidez. A inversão do 18 é um único senão - diminuido pelo tom favorável dos outros. Serve como alerta para não perderem esses mesmos parâmetros por excesso de ousadia. Implica também num chamado ao que é legal, frente a legislação brasileira. O símbolo. O peregrino tenta atravessar uma rua movimentada. Acostumado a percorrer caminhos isolados e sozinho, hesita ao perceber tanto movimento. Fecha os olhos e avança. Atravessa a rua. Talvez confiemos em demasia... Mas o que é confiar em demasia? Importante seguir o coração. Quando a causa é justa, o universo inclina seu tronco, agradece e coopera.

Flavio Alberoni

mercoledì, giugno 13, 2007

divulgação
FESTEJOS JUNINOS
na Território Brasil
em junho o destaque da galeria foram os trabalhos dos fotógrafos Luciana Cattani e Gabriel Boieras com fotografias do projeto Brasil em Festas, registros da diversidade cultural brasileira. Na exposição, os festejos juninos que fazem parte dos calendários de turismo e entretenimento em várias partes do país. A Galeria Território Brasil fica na rua Mateus Grou, 580, em Pinheiros.

domenica, giugno 10, 2007

divulgação
Júlio Andrade e Tainá Müller

Beto Brant e Renato Ciasca dirigem Cão Sem Dono, baseado no livro Até o Dia Em Que o Cão Morreu, de Daniel Galera, que conta a história sobre o encontro de Ciro - recém-formado em Literatura e em meio à uma crise existencial - e Marcela, uma ambiciosa modelo em início de carreira e obsessiva pelo trabalho. O filme é estrelado por Júlio Andrade e Tainá Müller e o escritor Marçal Aquino assina o roteiro junto com Brant e Ciasca. Daniel Galera é apontado pela crítica como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros. O livro que deu origem ao filme acaba de ser reeditado pela Companhia das Letras. Mais informações: www.dramafilmes.com.br/caosemdono.

venerdì, giugno 08, 2007

Jornal da Praça#52

Valéria Pereira usa acessórios V&V Bijoux
produção Camaleoa, assist. produção Valdete Pereira
ph Barrox, 2007
I

É no seio
que começa o caminho
do veio,
que fica no meio
do continente,
onde medram florestas (nunca virgens),
odores variados, carúnculas curtidas
em saliva, espasmos inefáveis e
micróbios letais em vinagrete

II

Deita e não te movas,
Por enquanto,
Deixa que o planeta invente,
por nós,
posições fundadas na hora,
inaugurais e precursoras.
Sem atritos ferozes,
Hiperêmicos,
Mas parcos e sinceros gemidos cavos,
Lubrificaremos os mancais do mundo
Na eternidade de segundos:
- juntos.

III

Alavanca de fogo,
chama de espírito-santo,
avança e arranca
da alavanca,
bica de gerações,
em rotações atômicas,
vibrações e gosma.
Gosma que cola o céu à terra.

IV

Eu estava cortando a barba
como quem poda catuaba
em lua certa, e de foda:
cheia.
Era sábado e vi,
entrando pelo espelho
(e o barbeiro viu)
o que não era de ser visto
sem mexer,
pois que que mexia nervos e movia
pênis em maré-mansa na rua.

Ó insólita, liquidificadora e anônima
visão:
trago-te a marca na faze e,
na alma, até hoje
o mistério
inacessível
do hemisfério
partido em dois.

No verão, só bebo gim,
assim:
dois cubos de gelo
para três do líquido alérgico.
No pensamento, uns pêlos
De conhecido púbis.
Na pica, tesão.
Alguns versos pícaros de Bocage
(pra rimar com sacanage)
e estou feito.
Nem mais um ingrediente
pro tempo quente
ou pra tempero
da função:
atéia, à toa, sin conrazón.

VI

Não lhe cabe dar mais do que isso:
um palmo de chouriço,
ou de caralho - e quiser
Preto faz bem ao sangue,
imprevistamente flamengo.
Vire, assim, com certo dengo:
agora, o rabo,
é tudo,
meu bem,
como meu menu:
- não há nada como um cu
ou um bife terminal,
no comprido traseiro da aurora
que,
- nas asas dos anjos,
airosamente se arregaça
- e vem.
RosárioFusco
Carpricorneanas, do livro Creme de Pérolas, inédito.
Rosário Fusco era um desses caras apaixonados por literatura, com 11 livros debaixo do braço, sempre sendo apertado por algum banco, mas nada que umas músicas tidas como cafonas, pela garotada da época, não o deixasse calmo. O problema dele não era dinheiro, era beleza. Beleza! Sua literatura era visceral e é considerado precursor do realismo fantástico (em 1947, com O Agressor), bem antes de Murilo Rubião e José J. Veiga. Abortou o Modernismo! Na arte Moderna não há escolas, nem nada. Portanto, cada um pra si (...) Nada de partidos. Nada de polêmicas. Nada. Nada. Nada! Dizia num manifesto na Revista Verde (1927-1929). Fusco era de Cataguases, filho de lavadeira mulata e de um italiano. Casou cinco vezes. Foi considerado maldito e irreverente e é comparado a Kafka e Dostoievski. Morreu, dia 17 de agosto de 1977, com sua esposa Annie e sua inseparável garrafa de whisky, isolado e desiludido. Um de seus livros, reeditado e já nas livrarias, é o romance a.s.a – associação dos solitários anônimos (Ateliê Editorial), Coleção Lê Prosa, organizada pelo escritor pernambucano Marcelino Freire. $ 38, (290 pg.). (Camaleoa)

domenica, maggio 27, 2007

phBarrox
Valéria Pereira, artesã; Camaleoa, escritora; e Valdete Pereira, poeta

LiTeratuRAMarGinal
Será Que Será?

Onde está o poeta marginal que eu procuro entre paulistanos, estrangeiros, caipiras, nordestinos, sambistas, funkeiros, metroviários, dentro e fora da Paulicéia Desvairada, sim, ó Oswald, me conta, me explica o que se passa nas entrelinhas das (não)-críticas literárias em revistas e jornais de cultura, uai, sô, sim, porque eu tô por fora de tudo isso, mas tem gente, tem tanta gente pelas esquinas e bares com livros debaixo do braço que chego até ficar contente de ver toda essa literatura produzida sem apelo de editoras, de agentes literários, mas os caras estão no folder, no panfleto, na boca do povo, em manchetes de jornais e eu fico tentando entender o que é essa tal literatura marginal se a pegada tá na escrita, tá na gíria, tá no excesso de palavrão, tá na atitude largada, tá no estilo urgente de viver, tudo hoje, tudo agora, lascando o foda-se pra todo lado e – AH! – mas isso não é falar de literatura ou eu tô ficando doida? Vestuário também virou elemento literário? Literatura marginal! Li-te-ra-tu-ra. MARGINAL! Isso me lembra estar à margem de alguma coisa, de algum processo, de algum lugar, e será que não é isso, todo poeta, de qualquer parte, com qualquer corte de cabelo, com qualquer coisa no papel, escrevendo, escrevendo sem parar sobre corações apaixonados, sobre a revolta dos plânctons, sobre guerras intergalácticas lá no cu do mundo ou aqui, ali, bem debaixo do nosso nariz? Então perguntei a uma acadêmica, uma doutora das letras, uma professora universitária, lá entre araras e tuiuiús, lá de Mato Grosso do Sul e Rosana Zanelatto me explicou que intitular-se poeta marginal é mais uma rubrica socioeconômica do que artística, uma rubrica que indica o não-estar no mercado editorial, uma denominação que encarna um processo que extrapola o viés do artístico, do literário. Pra ela, isso é uma espécie de marketing, e lembra Cidade de Deus, de Paulo Lins, obra que deu força a uma linguagem de escritores cujo principal apelo é o fato de terem nascido, se criado ou convivido com as ditas comunidades e colocarem em cena essa realidade, numa literatura marginal. Rosana me diz que já viu e leu isso antes e foi n’O Cortiço, de Aluízio Azevedo. Eu sei, às vezes nem eu entendo o que esse pessoal quer dizer, às vezes eles são muito chatos, até insuportáveis, mas aí veio a menina que prepara Chá para Borboletas e perguntei pra ela, poeta curitibana, o que ela entendia por literatura marginal. Bárbara Lia me disse, entre uma música árabe e outra, entre pontes e mulheres profanas, entre toda sua poesia extremamente lírica que ser um poeta marginal é estar à margem dos bastidores, das colunas literárias, à margem do respeito muitas vezes, à margem do reconhecimento inclusive dos outros colegas poetas, à margem, sempre à margem geralmente porque você faz perguntas demais, à margem porque geralmente você não é de grupinhos, à margem porque você quer ter a liberdade de escolha de publicar e escrever o que achar melhor, à margem porque você não se encaixa naquilo que atualmente é considerado bacana, legal, cool, hiper, jóia rara. Literatura! MARGINAL! Às vezes eu acho que tudo virou um rótulo, ser marginal é um rótulo, um marketing pra vender livros a preços módicos porque o cara que tá lá na roça e não se encaixa naquela caminhonete, naquele pasto imenso, não se vê sentado na cadeira contabilizando gado ou soja, ele é... Manoel de Barros que conversa com formigas, que fala a língua das árvores, das rãs, já foi durante muito tempo um poeta marginal, esteve à margem, não se encaixava em nada, queria apenas brincar com as palavras e talvez, não sei, um dia eu descubra se falar palavrão aos berros em poema ou prosa faz alguma diferença, ou se tudo bem ser uma romântica com flores enormes em broches na saia ou na blusa e fazer uma puta literatura fragmentada, urgente, dançante, com muito sexo e guloseimas, acompanhada sempre de personagens meio homem, meio animais e entender que ser marginal não é um estilo de vida, que ser marginal não é uma opção, que ser marginal não tem regionalismos, que ser marginal é atemporal, que ser marginal é correr riscos, seus próprios riscos porque, no fim das contas, quando estivermos bem velhinhos ou talvez nem mais aqui, o que fica é literatura, somente literatura.
Camaleoa, JdP#51
phBarrox
Bia Fusko

teatro
Palco e Platéia, que rumos
(ou sem rumos)?

Parece que tem cheiro de queimado no ar QuAnDO se fala em teatro. Alguma coisa no processo não deu certo, passou do ponto, faltou tempero ou a medida foi errada, pelo mais ou pelo menos o conjunto da obra é manco. Manco, perneta, torto.
Alguns anos atrás, quando estava começando a estudar teatro, Gerald Thomas falava em "falência múltipla dos órgãos do teatro". E isso ficou, fixou na minha cabeça consciente e inconscientemente em maior ou menor grau à medida que fui me embrenhando por entre os meios desta arte, seja como público, ou como participante.
No início, na Grécia de séculos atrás, rituais e considerações a Dionísio (outro) e hoje no tão imaginado séc. XXI, eu pergunto: esse teatro é pra quem?
O que muito se vê é um "produto" e agora falo como resultado final, um produto esquizofrênico; que não obstante faz alusão a um mundo propriamente pessoal, uma projeção vinda unicamente a partir do "EU" criador e para ele mesmo. Um tipo de terapia, ou exercício de ego, não sei. A raiz teria-se que procurar. O que se pode ver é a doença manifestada.
Quando não, utiliza-se facilmente de artifícios baratos para ganhar público, ou melhor, dinheiro. Nos palcos e nos bastidores. Como me falou, claramente, certo diretor que perdeu a maior parte de seu tempo a assegurar-me de que "não haveria penetração, nem oral", ao convidar-me a participar de uma peça em que ficaria semi-nua em cena com um garoto. Enfatizava que era essa a motivação do público, de maneira geral, e também por aí se envereda o "desafio do ator". O mais incrível foi ver como acreditavam piamente nesse tipo de idéia, na ênfase de que seja esse um teatro lucrativo, e na crença de uma superação do exercício teatral através de prática tão pobre.
Recordo então outro momento, que estive em uma leitura no MASP, seguida de um bate-papo; leitura essa que se dispunha a discutir uma dramaturgia contemporânea, juntamente com seu público - empáticas ponderações sobre os personagens, os "EUS" da história, psicologias, opiniões, analisadas obviamente por um espectro de referências e experiências pessoais e... pra onde foi a dramaturgia? Coitada, provavelmente seja um dos órgãos de que falava Gerald, a essa altura do campeonato, (que campeonato!) nem se vê direito. Onde começa, onde termina o rabo do cachorro, quando ele começa a girar em círculo? Mas enfim, voltando à leitura de que falava, o ator (da leitura) finaliza o debate concluindo o teatro como mero exercício de catarse, onde o expectador a partir de uma identificação com o personagem, exorciza suas sombras e alivia-se, garantindo sua "sanidade".
Exatamente como acontece nas telenovelas, mas assim de uma maneira mais, refinada, digamos, com uma capa "intelectualizada". Uma espécie de produto, agora sim, no sentido comercial, para um alvo um pouco mais inteligente, mais sacado, que nega a televisão e toda a cultura de massa.
Mas o mecanismo é o mesmo.
Enfim eu pergunto de novo. Pra quem faz. Faz pra quem? E pra quem assiste. Vai pra quê?
Palco e Platéia, que rumos (ou sem rumos)? Húmus, um pouco. Pra adubar essas cabeças, esses espíritos. Uma vez que qualquer estudante de teatro já cruzou o velho Stanislavski, em seu intento de "recriar a vida do espírito humano". Que vida é essa que está sendo recriada?
Sem brilho, sem cor, sem novidade. "Teatro dos vampiros"?
Naquele dia, no MASP, todos concordaram e voltaram para casa tranqüilos, possivelmente aliviados de seus fantasmas. Porque existe, aí, também, uma cultura com uma embalagem um pouco melhor, mas com a mesma função. Uma cultura para fantasmas um pouco mais nobres, que não podem ser exorcizados na poltrona do sofá de casa, mas talvez em alguma outra mais confortável, que possa ser encontrada no teatro, no cinema, ou quiçá em algum espaço alternativo do centro da cidade ou da Av. Paulista.

Bia Fusko, JdP#51


giovedì, maggio 24, 2007

phBarrox, 2007 - série Planeta São Paulo
a praça recebe várias manifestações de arte e cultura aos sábados

jornal do Apocalipse

por Débora Aligieri, especial para o JdP#51
Começa a gargalhada hoje, daqui a 50 dias, daqui a 50 pautas de votação no Congresso, daqui a 50 anos (se a crise energética não se consumar). E sabe quem é o atual Presidente da Comissão de Constituição e Justiça - CCJ? O ACM. Eu preferiria se fosse ACME, Perna-longa para Presidente da CCJ, como sucessor do Lula, aliás, para Governador do Estado, porque a saúde seria levada a sério. Tempos atrás fui ao pólo de diabetes do Estado de São Paulo que, por lei estadual, deve fornecer todos os insumos para tratamento da doença, e fui informada que não fazem mais cadastros porque já tem muito doente cadastrado. Quero meu nariz de palhaço! Qual a função de uma lei estadual que não é respeitada pelo Estado? Eu vou pedir meus remédios pro PCC, porque eles sim pagam remédios para a comunidade carente e até financiam times de futebol. E eu, carente de orientação fui pedir auxílio ao Papa, mas me deparei com um rio de lágrimas populares, até pensei que as pessoas estavam chorando porque o Congresso aprovou o aumento de 30% dos "parcos" proventos dos congressistas, mas era o circo religioso. Então, fui ouvir a primeira entrevista coletiva do segundo mandato do Presidente da República, que ensinou técnicas abortivas como agulha de tricô e chá de caroço de abacate (arrá, essa você não sabia!). Enfim, acho que a culpa deve ser minha por ser diabética, já que todas as propagandas públicas culpam o cidadão: se as ruas estão sujas, a culpa é do cidadão que é porco e joga lixo na rua, não da limpeza pública ineficaz e da falta de lixeiras; se não há recursos para garantir bons serviços públicos, a culpa é do cidadão que não pede nota fiscal, não do desvio de verbas. E o Algore deveria pedir autorização a este distinto apocalíptico, já que agora ganha dinheiro fazendo palestras sobre o fim do mundo (já que não conseguiu se eleger Mr. President para dar causa ao fim do mundo, como faz o eleito). Quero meu nariz de palhaço para começar a gargalhada daqui a 50 minutos, daqui a 50 entrevistas coletivas...
O jornalista Milton Jung foi o convidado do projeto O Autor na Praça no sábado, dia 26 de maio. O jornalista autografou os livros Conte sua história de São Paulo e Jornalismo de Rádio; e o evento fez parte da celebração do oitavo aniversário do projeto, que acontece no Espaço Plínio Marcos aos sábados durante a feira de arte da Praça Benedito Calixto. Jung começou a carreira no Rio Grande do Sul, onde trabalhou nas Rádios Guaíba e Gaúcha e no Jornal Correio do Povo. No final da década de 80 radicou-se em São Paulo, foi repórter nas tvs Globo, SBT, Cultura e Rede TV até entrar no Portal Terra onde apresentou o primeiro jornal eletrônico brasileiro, o Jornal do Terra. Apresenta atualmente o CBN São Paulo, na rádio CBN e por três anos seguidos foi finalista do prêmio Comunique-se na categoria Melhor Âncora de Rádio. (EB)

sabato, maggio 19, 2007

ph Barrox, série Planeta São Paulo, 2007
ESTRANGEIRO NOVE agora é quase esse dia de manhã e, por exemplo, tinha um cartão na caixa de correio! porARTandywarhol meninas de maquiagem forte e olhares difusos. ainda acho estranho que de manhã o rádio do carro toque Mozart pra caras que estão dentro dos carros como se fossem pra quadra da escola de samba, ou talvez seja mesmo por isso. a rua oscar freire de manhã não tem nada a ver com o que dizem os jornais ou a mulher de gestos artificiais talvez não tenha lido as colunas sociais ou olhado direito nos olhos de quem ela diz que é seu amor... seja como for, NOUTRO DIA eu assisti um show, vi uma exposição de arte e conversei com alguns artistas tipo marginais. daí, nunca sei porquê, e enquanto recompunha meus olhares, vi que o mundo TINHA completado uma coisa parecida com outro ciclo. nesse dia era quase de noite, havíamos conversado, bebido, comido e minha mitologia me disse assim desse ciclo. Tento, nessas horas, pensar em outra coisa, talvez mais sérias do tipo que o senhor com ar sério esperando o sinal abrir gostaria de ouvir, mas o que penso remete à lembrança das paisagens que ainda não vimos ou trechos de poesias, ou olhares como no dia em que nossos olhares se encontraram e eu fiquei sabendo de tantas verdades íntimas e pus minhas mãos em seu ombro e num momento muito fugaz acho que senti seus desejos. minhas. suas. Como se recompor de fragmentos abstratos ou de abstrações metafóricas? não decodifico energias cósmicas assim como não preciso agora delinear fernandoPessoa no café de Lisboa ou em noches de Buenos Aires onde Carmencita seminua misturava fumaça de Gitanes a trechos de Cortázar y Borges - vinho tinto - e provocava em boca de carmim astorpiazzolla corpo celestial. Naquele momento de nosso Encontro tudo se transcendeu. noite de hotel, celulares tocando, ouve-se distante o som da música, jazz muito jazz na caixa, a cidade semi-adormecida em fotografias no centro velho e ninguém mais no raio de ação, umbigo do mundo, corpo moreno que mais do que nunca é índia, cheira terra, questão de pele e nos beijamos na calçada em alguma calçada de Paris enquanto o velho que passa quer te reprovar com o olhar enquanto os outros olhos te comem lambuzada em mel e sexo sacana e também procuram armas que destroem extraterrestres pra cortar meus cabelos agora brancos. então te ouço te quiero oferecer mi cuerpo soy loca por ti nesta improvável fusão de destinos, enquanto leio seus poemas e também leio suas palavras escritas com dor e líquidos doces suaves, versos, soleil de manhã, os gatos curtindo o calor circunstancial desse outono estranho no terraço, y saxofone gritos de alerta e tudo que desfaz em noites entre sussurros; assim como na cidade maluca nunca precisa ser noite nunca é dia nem sempre é chuva quase nunca é sol, ou tudo ao contrário nos dizemos enquanto os pop jornais - cadernos culturais de araque - estampam a fotografia retocada da putinha que perdeu o prumo, o cabaço, e ainda não pôde saber dignidade porque se aprender terá que escolher entre isso ou o programa de tv onde expõe pernas abertas e maquiagem borrada. Então o que me importa é que mesmo nesse ‘clima bladerunner’ que de vez em quando se deixa encobrir a cidade, sempre restará aquele momento (mágico?) dos nossos textos escritos um por causa do outro, quem sabe, e o sorriso como quem não sabe, mas no fundo sabemos de tudo e de como ainda vamos poder olhar o mar e dar abraços e coisa e tal. enquanto passam pela rua umas pessoas pop-equivocadas, de roupas e maquiagens erradas e tudo que nem sei. E nessa fusão de agora e sempre seus poemas aqui revelados. me encanta Te saber por dentro, Te fazer perguntas - eu sonhava com isso, eu ainda sonho com isso - e não tenho mais dúvidas sobre valer mais um toque de lábios alimentando a vida com a loucura como quem goza e depois nem sabe quando, ou os livros perdidos em prateleiras muitas e de saber que nem tudo está perdido e porque se ficamos exaustos temos o banco da praça e as carícias obscenas resumos de histórias bem contadas entre frases bêbadas de absinto que nos encantam em delírio seus versos ditos entre goles e sorrisos com olhos alegres. Até porque amanhã é outro dia e ainda há que se costurar outras cinquenta e tantas emoções.
texto & fotografia de capa da edição#51, por Eduardo Barrox

venerdì, maggio 11, 2007


FURACÃO ELIS

Jornalista e escritora, Regina Echeverria faz tarde de autógrafos como parte da comemoração de oito anos de atividades do projeto O Autor na Praça. A autora trouxe nova edição de seu livro Furacão Elis que tem novo projeto gráfico, depoimentos atualizados, além de fotografias inéditas. Regina também é autora dos livros Só as Mães São Felizes e Preciso dizer que te amo – Todas as letras do poeta - sobre a obra de Cazuza e escritos em parceria com Lucinha Araújo - Gonzaguinha e Gonzagão, uma história brasileira, Mãe Menininha de Gantois, uma biografia e Verger – Um retrato em preto e branco, os dois últimos em co-autoria com Cida Nóbrega. (EBarrox)

domenica, aprile 29, 2007

phBarrox
Magda Pucci, que estréia coluna no Jornal da Praça

Universalidade
Não SignificaGlobalização
Nós Nos Bastamos?

por Magda Pucci

Às vezes em nosso canto passam acentos nórdicos, suecos e noruegueses... Como que vieram parar aqui? Acentos idênticos também se encontram em Portugal e principalmente na Espanha. Às vezes um canto nosso é... russo duma vez. Outras vezes é um canto russo que, mudando as palavras, todos tomariam por brasileiro (...) Na realidade, foi de uma complexa mistura de elementos estranhos que se formou a nossa música popular. (Mário de Andrade)

Ninguém duvida do poder universal da música. Quando ouvimos uma música africana, ou indiana ou árabe percebemos que há algo nelas que transcende as fronteiras geográficas e políticas. Mesmo não entendendo uma única palavra nos sentimos envolvidos por alguns elementos daquela música estranha ao nosso repertório cotidiano. Vamos ao óbvio ululante: a música tem códigos universais que podem ser compreendidos em qualquer parte do mundo. E mesmo aquelas músicas, que passam de geração em geração pela tradição oral, conservam algumas características peculiares de um lugar, mas há também ali, aspectos universais. E isso é fato antigo e não fenômeno exclusivo da globalização.
Em 1930, o compositor húngaro Bela Bartók, a convite do governo, pesquisou músicas da Hungria e dos países vizinhos, buscando coletar qualidades nacionais definidoras de uma "superioridade nacional". Qual não foi sua surpresa quando ele observou que uma melodia do deserto do Saara era idêntica a um canto húngaro, sem que houvesse a comprovação de migrações entre os dois lugares. Bartók, então, entendeu que estruturas básicas se repetiam em lugares diferentes e distantes e que elas formavam elos, que constituíam ‘coincidências’ musicais de caráter universal - idéia que se contrapunha ao nacionalismo do momento. Com isso, concluiu que a música popular era impura e que isso lhe propiciava uma riqueza esplêndida – conceito que criou problemas para Bartók, pois ele não só perdeu seu emprego como também teve que se exilar.
Mas ainda, hoje, há quem queira defender e ou buscar a "autenticidade", a "pureza" e a "originalidade" da música, esquecendo-se que ela, a música, talvez seja a arte mais esponjosa de todas, a mais "maria-vai-com-as-outras", a mais antropofágica, pois se mistura com grande facilidade. Ainda mais depois de todas as miscigenações e colonizações dos séculos passados, ficou cada vez mais difícil definir o que é "de raiz". Mas virar as costas para o mundo dificulta tudo. Se ouvíssemos a música do mundo, não conheceríamos melhor a nós mesmos? Quando as pessoas criticam a world music, eles a acusam de ser globalizada, sem personalidade, mas se esquecem que a universalidade não passa pelo filtro da modernidade e muito menos da pós-modernidade amplificada pelos atuais meios de comunicação. O que é globalizante é ouvir o dia todo música pop americana de péssima qualidade ou ficar achando que a MPB do Tom é que era a boa... Não percebemos que a música brasileira anda fragmentada e indecisa, segue desprezando as tradições mais interessantes e deseja a todo custo se equiparar a um "padrão globalizado" das trilhas sonoras das novelas. O pop brasileiro é ruim, a MPB está sem saber para onde ir, a nossa música eletrônica é medíocre. Por que não aproveitamos os meios de comunicação para propiciar trocas culturais criativas? Afinal, esse intercâmbio cultural não é fato recente como dizia Bartók e Mário de Andrade no inicio do século passado.
Por que vamos ficar nos preocupando com o que é ser brasileiro de verdade? Será que deveríamos nos isentar de "conhecer o outro" porque temos uma cultura tão rica que não precisa de mais nada? Nós nos bastamos? Será que deixaremos de ser brasileiros se ouvirmos o son cubano, a raga indiana? Será que Picasso foi menos espanhol porque se inspirou nas máscaras africanas para compor seus quadros cubistas? Será que Debussy se globalizou quando compôs suas peças baseando-se nos sons dos gamelôes balineses?
Ao virarmos as costas para o mundo, corremos o risco de perder a possibilidade de captar elementos primordiais que são propulsores de idéias que se rearticulam ciclicamente, formando combinatórias musicais perenes, mas ao mesmo tempo plásticas e mutáveis. Elementos que impulsionam não só descobertas estéticas, mas como também tiram a poeira da história, desvenda mitos, faz respirar a antropologia e possibilita a criação de percursos artísticos intrigantes. Isso é ser pós-modernista. Idéias nacionalistas e ufanistas certamente são coisas do passado. O fenômeno da globalização parece nivelar tudo por baixo, mas com sabedoria, saberemos não nos intimidar e partir em busca de outros sons para uma renovação mental, se os deuses nos ajudarem!
Pretendo então escrever sobre a música que se faz por aí no mundo afora, aquela que a gente pouco conhece. Eu, Magda Pucci, prometo a vocês, leitores do Jornal da Praça, abastecer-vos de pequenas doses mensais de música bacana, aquela que fica meio de lado nas rádios comerciais.
Você pode ouvir o que eu toco no site da radio USP www.radio.usp.br, clicar em programas, e depois em Planeta Som na coluna da direita e ouvir os programas produzidos desde 2004. Boa viagem pela música de todos os povos!!!



Magda Pucci produz e apresenta, há mais de 10 anos, o programa de rádio Planeta Som, transmitido pela Rádio USP FM 93,7 sábado às 11h e domingos às 16h, pela rádio alemã Multikulti (série World Music Night) e mais recentemente pela Rádio Universitária de Londrina. "Eu adoro fazer esse programa porque toco o que gosto, eu mesma faço a seleção musical, escrevo os roteiros, faço as entrevistas (poucas, mas faço) e agora estou tentando atualizar o site do programa." No blog http://magdapucci.wordpress.com, na sessão de textos, você lê sobre sua experiência no III Jornadas Radiofônicas na PUC-SP. Magda também é musicista e líder do grupo Mawaca, especializado na música de todos os povos.


lunedì, aprile 23, 2007


Convidada do projeto O Autor na Praça, a escritora e jornalista Ruth Barros autografou seu primeiro livro Os Florais Perversos da Madame de Sade, romance erótico cuja ação se passa na França do século XVIII. O evento aconteceu no Espaço Plínio Marcos durante a feira de arte da praça Benedito Calixto, em São Paulo, e também celebrou o aniversário de cinco anos deste Jornal da Praça, cuja edição 50 já está circulando por várias capitais brasileiras, além de Portugal e França.

giovedì, aprile 19, 2007

phBarrox
Bia Fusko, atriz & poeta
texto & fotografia de capa da edição#50 do JdP
por Eduardo Barrox
soNgs froM LiQuid DaYs

...repetindo: foi numa tarde ensolarada - era quase nunca ao meio-dia entre abril e setembro - de quase sempre olhar em direção ao vento traços inexatos, telas brancas e fotografias preto&brancas coloridas em cores saturadas e agora se passaram cinco anos agora com driving into delirium tocando na caixa (arrá! você pensou que eu ia falar vitrola...) e cinquenta coisas diferentes aconteceram ao mesmo tempo neste século entre folhas de árvores secas, sentados na praça, no chão, lembranças, sua voz de vez em quando, seu corpo de vez em sempre. Era numa tarde de óculos escuros y coros imaginários, no display índios canibais esperando o navio atracar com as tais trapezistas virgens. Numa tarde de andar de bicicleta e sorrisos - eu nunca sei - mas tinha música como essa que agora fala de Paris e mistura Satie e depois a genial Cida Moreyra na balada do louco e lá longe as coisas são assim, aqui fica tudo podre às vêzes, mas nos falamos sou feliz, assim como nos falamos foda-se ou fica triste. Não entendo outra língua, mas quero sua língua. De se beber com o cônsul Geraldo na calçada do Consulado entre odaliscas, tarólogas, putas, sapatas (ops) e meninas de família fazendo virar a mesinha desse bar antropofágico falando e lendo meias verdades, soy loco por ti, América. La main parisienne e daí olhando essas meninas meio que mostrando a bundinha y generosos decotes passeando entre clics techno macunaímicos mímicos de olhares de desejo ou de nunca ou de sempre fica engraçado escrever isso; e o cara falando Catherine Deneuve com aquele sotaque que acho legal e eu pensando Béatrice Dale em Betty Blue e aí encontro minha amiga Marie Lorraine na porta do estúdio e ela tem esse sotaque legal. E quando o sol se coloca de lado - querendo descer - aí aponta a Lua minha amante cheia (de amor?) e meus olhos mecânico-digitais olham nos olhos dela e vejo marcas em seu corpo... mas ela é linda, sempre. Aqui nunca é tarde demais, vejo na fotografia em que você me olha nos olhos e agora nossos tempos nem são tão diferentes porque essas linguagens não tem porque serem datadas, seladas, carimbadas com esses venenos da medíocre hipocrisia. Melhor assim que não assim. Na tarde quente, conversas de Angela água tônica com gelo e sanduíche de pernil feito por Cleide plus docemente selvagem e temperado sanduíche buraco quente e cerveja gelada et saliva e boca ou quadris ou pernas cruzadas e olhares idem e depois no Alberico capuccino-Camaleoa-poeta. São Paulo é como o mundo todo, diz Caetano. Somos ridículos, diz o velhote, e não tenho certezas apesar dos brancos cabelos, camisetas manchadas de tinta acrílica e guaches misteriosos retratando minhas íntimas paisagens (des)conhecidas. Somos geniais também, você nem imagina o quanto; mas ele já se vai e não importa, a tarde tem poesia correndo solta BeAtriz, vou pegá minha fulô. No entanto não me importam mais as coisas que saem escritas nesses jornais do Sistema. Sempre mentem, agora eu sei, porque me disseram do Amor e querem me fazer ler Ódio. A vida é como um cinema, mas foda-se - eu sei que vou morrer no fim - porque importante foi me tornar gente da floresta, assim como importante foi te olhar nos olhos tantas vezes e te ver chorar e sorrir quase-criança-mulher. O importante é ter poesia, letras et imagens, desejos sussurrados... No hay pecado mi amor do lado de baixo del ecuador, terno tempo eterno salada de frutas pimenta nos lábios fotografias et plus outras finas iguarias mineiras de chef Fernando no Consulado da Cônego with pinga da boa with ponderações acerca de serramalte ou bohemia, você sabe com quem. E a vida é bela y quando cai a noite en la calle y en las ramblas et tropeçando nos copos & ainda tem muito mais pra acontecer e parecer. Mas, dizia eu, foi numa tarde ensolarada que podia ter sido manhã chuvosa ou madrugada de neblina. Em que imaginei seu corpo de biquíni sem a parte de cima dentro do carro indo pra praia. E agora você vai se lembrar disso a vida inteira, porque também não quero te esquecer. Agora - on the road - depois de tantas tardes e personagens e o carinha nem aí olhando as árvores não me importam amanhãs. Ou como acabou aquele texto, já se passaram todos estes anos, e dizia o cavalheiro Osvald ‘no pão de açúcar de cada dia dai-nos senhor a poesia de cada dia’. e tal e coisa... Agora vambora que tem mais cinco séculos e mais uns cinquenta finos biscoitos, inclusive meio culturais. Ou também, como o Jimmy Page também já havia dito: ‘você não cai na estrada pra ficar entediado, né?

texto referência publicado por Lilian, Rebecca & Barrox na edição#4, depois reescrito por Mariana Terracota na edição#39 e agora absurdamente reutilizado por Eduardo Barrox ao celebrar os cinco anos de brava resistência deste Jornal da Praça
phBarrox
a escritora Camaleoa, produtora do Jornal da Praça

crônicas da CAMALEOA

Five Years
Tá certo, então o Jornal da Praça completa Cinco Anos, 5 anos de muito bate-papo, de muita fotografia, de DEPOIS DA PRAÇA, de CARAS DA PRAÇA, de coluna BLOW-UP, de tudo isso e mais um pouco, mas todos os confetes, todas as serpentinas, todos os gritos de U-HU!, todas as palmas, todos os beijos – por favor, meninas, com muita calma – e parabéns são mesmo para uma só pessoa. Cinco Años de Jornal da Praça, são cinco anos de Eduardo Barrox na mídia impressa alternativa!
Há de ser comemorado com garrafas de champagne – porque eu sou uma mulher chique! – ou com petiscos e A cerveja gelada que Ele tanto gosta porque Barrox é o cara nisso tudo. Principalmente pra mim. Uma jornalista sul-mato-grossense, sem experiência em jornal diário, da área de assessoria de imprensa, de uma geração que conhece o jornalismo através da universidade, de livros, de laboratórios, que se deslumbra sempre com a possibilidade de mudar o mundo e invariavelmente se decepciona com a realidade.
Jornal da Praça completa esse mês CINQ années – eita bugra metida à francesinha! – e eu quase UM nessa deliciosa balburdia de redação móvel, Oscar Freire e Praça Benedito Calixto, na companhia de Barrox sempre com cara debochada, às vezes completamente neutra, olhando manso, com a cara de índio que tem, enquanto você fala - e se prepara - porque ele vem com tudo e derruba todas suas certezas, toda sua empolgação porque Ele é da turma que viveu o jornalismo de um jeito bem diferente desse vivido por nós, crias de universidades. É inevitável o atrito.
Fazer jornal não é uma tarefa fácil, como nada na vida. É um lance que requer atenção, vivência cultural, questionamento e avaliação a respeito de tudo e a todo instante. Não basta ler um monte de livro pra depois babar referências ou estampar títulos de pós-graduação na testa. Essas coisas ajudam, mas não fazem a diferença. E Ele me ensina a olhar, a retornar o olhar por outros parâmetros e entender que não é porque o cara se pinta de palhaço que ele É um palhaço, não é porque o cara toca um violão na praça que ele FAZ arte, não é porque o cara vende livro de autoria própria nas esquinas que ele TRANSFORMA a literatura. Parcial e Imparcialidade. Fazer jornalismo é ser parcial a partir do momento em que se questiona o que uma sociedade nos propõe, ela e seus meios, a própria imprensa que divulga e filtra o que acha pertinente sabermos e manipula a fim de que tendamos a este ou aquele lado. Não preciso convencer ninguém, mas começo a entender que mais importante do que noticiar, colar ou condensar releases, é meter o dedo xereta e produzir então uma nova informação que leve o leitor a questionar e refletir sobre – inclusive – o que nós escrevemos. Cinco Anos de Jornal da Praça, em meio à grande imprensa, na cidade de São Paulo, e eu começo a ver que não basta se revoltar com o sistema, nem achar bacaninha a atitude do artista alternativo pra fazer jornal e encher uma coluna mensal (imagina uma semanal?!). Pra uma jornalista como eu, uma romântica caipira, há de se pensar todos os dias, refazer vários conceitos de trabalho e também de vida e reavaliar invariavelmente tudo o que me foi ensinado na universidade. Tudo isso a partir deste jornal, o Jornal da Praça, na companhia Dele, do fotógrafo, do jornalista, do artista, do escritor Eduardo Barrox. Parabéns Jornal da Praça! Parabéns Barrox!!!
phBarrox

tatoo: Gabriela Cruz


Singela tatuagem
em bela mulher já é um aviso:
"Estou por dentro do meu poder".
Mas o tat-tut de Gabriela
é múltiplo arraso:
simplesmente ser vista não lhe bastou, tinha que retribuir o olhar,
de Cleópatra, claro – e o esquerdo – a sobrancelhar maroto sorriso e a vibratar cílios que convocam ao mesmo tempo em que
deslizam o passo: "estou indo"!

RuiMagrini


venerdì, febbraio 23, 2007

phBarrox
Nicole Argalji
suplemento Sábado
Jornal da Praça#49

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No sábado é que as formigas subiam pela pedra. Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde. Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais. Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

Atenção ao Sábado,
Clarice Lispector
do livro Para não Esquecer

martedì, gennaio 30, 2007

phBarrox/JdP
jornalista Ricardo Kotscho

O AUTOR NA PRAÇA
recebe os jornalistas
José Hamilton Ribeiro & Ricardo Kotscho


Os primeiros destaques do ano no projeto O Autor na Praça - evento quinzenal da feira de arte da praça Benedito Calixto, em São Paulo - foram os jornalistas José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho. Zé Hamilton, único repórter brasileiro a receber sete prêmios ESSO e que cobriu a Guerra do Vietnã pela revista Realidade, autografou seu livro mais recente O Repórter do Século, Tropeiros – Diário de uma Marcha e Música Caipira. Já Ricardo Kotscho - que faz a apresentação do livro O Repórter do Século - autografou seu novo livro Do Golpe ao Planalto – Uma Vida de Repórter e outros títulos de sua autoria. Ricardo Kotscho também é o entrevistado da jornalista Camaleoa, que estréia coluna na edição do tablóide Café Literário que circula na última semana de fevereiro com distribuição nacional e para alguns países europeus, como França e Portugal.

giovedì, gennaio 18, 2007

A cantora Sophie Ellis Bextor em campanha para o PETA
com uma raposa morta e sem pele e os dizeres:
"Eis o resto de seu casaco de pele"
(blowUpPress)

lunedì, gennaio 08, 2007


janeiro de 2007
a volta da censura no Brasil

2007 começou a todo vapor.
Por conta da batalha judicial entre a apresentadora & modelo Daniella Cicarelli e o site YouTube, internautas brasileiros ficaram por quase um dia inteiro impedidos de acessar aquele site de vídeos.
O assunto ganhou repercussão internacional e milhares de cartas, e-mails, ameaças de boicote ao programa apresentado pela modelo invadiram a mídia e restabeleceram a dinâmica da democracia. (EB)

sabato, gennaio 06, 2007

a bela Sofia Loren é destaque no calendário Pirelli de 2007

Com imagens realizadas com um lençol sobre uma cama de casal numa casa na Califórnia (EUA) pelo casal holandês Inez Van Lamsveerde e Vinoodh Matadin, a edição 2007 do Calenário Pirelli traz fotografias de cinco atrizes entre as quais se destaca a bela Sophia Loren. Aos 72 anos, a bela atriz ainda conserva os traços que a tornaram famosa no cinema. As outras são: Penelope Cruz, Hylary Swank, Naomi Watts e Lou Doillon, que vem a ser filha de Jane Birkin. Segundo os autores, que já fizeram campanhas famosas para Calvin Klein, Louis Vuitton e Yohji Yamamoto, etc., etc., "a idéia era fugir das tradicionais belas locações e criar uma atmosfera sexy intimista". Para a publicação foram selecionadas vinte e seis imagens, todas em preto e branco. Distribuído gratuitamente, o calendário tem tiragem média de 30.000 exemplares.

martedì, novembre 21, 2006

o pintor e sua modelo

Málaga, Espanha (BlowUp Press) - Uma das facetas mais desconhecidas do pintor Pablo Picasso, a poesia, é revelada em um livro que começou a ser vendido recentemente como celebração do 125º aniversário do seu (dele) nascimento. Os textos foram reunidos pelo pesquisador Rafael Inglada, um dos principais estudiosos da vida e obra de Picasso, que também considera que "o Picasso claramente espanhol, andaluz e malaguenho está no Picasso escritor". O livro chama-se Textos Espanhóis (1894 a 1968) e traz temas taurinos e gastronômicos, os hábitos, costumes e as raízes e tradições espanholas. Este lado literário de Picasso é praticamente desconhecido do grande público, sendo conhecida apenas uma edição completa das suas obras - Picasso Écrite - publicada pela editora francesa Gallimard em 1979; e um livro publicado na Espanha em 1961, Trozo de Piel, onde se incluem alguns dos poemas do pintor, descobertos pelo então Prêmio Nobel de Literatura Camilo José Cela. (E.B.)
phBarrox, 2006 DUAS SEMANAS
Carlos Pessoa Rosa
A pedra tumultua a água. Há uma fronteira entre as águas e a névoa. Ondulações até a margem. Os pés no charco, folhas secas e amarelentas; outonais. Nebulosa memória que traz a imagem de uma embarcação azul, tal cisne, figura feminina e lunar: La barca azul de mi ilusión navega... O Coro. Noturno de Chopin. De onde? Dedilham no silêncio de vento e pólen. Enviam cintilações musicais, conversações de seda, cadentes fragmentos de poemas. O desnudar lento da verdade. A insônia que me faz caminhar nas madrugadas, a procura insana de um território onde a dor da perda seja fugaz, onde duendes curem com o recurso de suas florestas y vibra un mundo eterno de armonía.
Caminho sobre areia e pedras. A luz, um rebrilhar de luz nos cristais de luminárias centenárias. Ouvíamos a Sonata em Si Bemol Menor, o vinho tinto entornado da garrafa, fora chovia, lia sua mão, Tenéis a suavidad de las serenas manos de las princesas celestiales..., não desconfiava de nada quando você me comunicou a decisão, passo, então, as manhãs tentando desvendar os mistérios das rupturas, os mínimos sinais sísmicos que sinalizam para a perda, quero prever, me preparar, mas o que consigo é chegar cada vez mais próximo do delírio, daquilo que senti ao ver escorrer dos lábios ainda úmidos de vinho um fio de sangue: Me miro torvamente com mirada que era rencoroso puñal... Não disse nada, deixei sua mão escapulir, o corpo crescer na minha frente, permiti que desaparecesse para sempre na porta do Hotel Nacional.
Sube el incienso en espiral, y en tanto la barca azul de mi ilusión navega como si fuera un cisne sobre un lago... A vela enfurnada pelo vento, desabotôo a roupa de Ana, a brisa misturada ao suor e gemidos, no ouvido Balada em Sol Menor, os corpos agitados, Tú tienes la belleza peregrina de uma princesa delicada y fina, o mar relembrando poemas, você nua reparando o batom, os pêlos negros entre as coxas... Quem imaginaria no mar aberto um abismo? Sigo meu rastro como o cão seu rabo. Sua figura presente. O olhar quase sempre obliquado, o longo pescoço levemente inclinado, como se procurasse algum vão entre a vida e os mistérios da morte, La aldea y la cripta, y el silencio arcano de los obscuros templos, para lá se dirigiam seus olhos negros, imaginei um lugar também para mim, mas não, você optou pela serenidade da clausura, eu continuo vagando entre sombras, nesse formigueiro de gente incendiária, à procura da metade perdida, de uma muchachita de carne perfumada com água de Colônia y fabón de Castilla, a quien ame com una pasión vaga y sencilla, que nació de unos versos de amor y uma mirada.
Ondas arrebentam-se no muro de cimento, ciclistas pedalam em direção ao cais, barcos aguardam ordem para aportar, ouve-se a memória de Guevara em todos os guetos, El gaúcho de voz dura, brindo a Fidel su sangre guerrilera, y su ancha mano fue más compañera cuando fue nuestra noche más oscura. Che! Quando se rompeu o elo entre a realidade e a fantasia? Onde estará Ana? Talvez em ilha Blanca, onde dizem terem visto um pájaro que afina su flauta aristocrática y divina... Hoje, busco o bulício banal dos salões, passo as tardes vendo homens fugirem em câmaras-de-ar, procuram Anas perdidas, distraio-me com a impossibilidade, a névoa se foi, a barba cresce no rosto, Ana pode ter morrido de um mal quase romântico, o que sei é que, En realidad, apenas sufrimos o gozamos; hablamos 5 veces y 9 nos miramos. Fue um pasión que solo duró 14 dias.

venerdì, novembre 03, 2006

Mariana Piccione & Priscila Matsuoka, ph Barrox
crônicas da Camaleoa

Hilda Hilst chega com o dedo na cara e escreve sobre bunda, peito, pinto e xereca enquanto tentamos achar a Patagônia e a Terra do Fogo no mapa do Brasil e ainda há quem diga que literatura erótica é coisa suja, de gente pervertida que só pensa besteira e sem nenhum valor literário. Mete, mete dinheiro na cueca, na mala, na conta no estrangeiro e ela escreve sobre água vaginal apesar do professor dizer que essa linguagem não tem nada de literatura. R-E-A-L-I-D-A-D-E. Fugir dela, sentar nela, currá-la até o sangue começar a pingar e as crianças se curvarem todos os sábados na nossa frente pedindo um pouco de dinheiro pra qualquer coisa e os pais de longe, comandando tudo sem medo do HOMEM já que não têm mais nada a perder.
Literatura erótica, literatura marginal, literatura autobiográfica, literatura clássica, literatura feminina, literatura da periferia quem diria, meu amigo Canclini! O que é literatura? Eagleton e Nitrini me socorram! Salve a Literatura Comparada! Não se pode mais negar nem fazer de conta de que os blogs estão aí e todo mundo escreve e aquele escritor lá de onde o Judas perdeu as botas – seria da Terra do Fogo? – pode revelar ao mundo de que não precisa ser americano nem argentino pra ser um puta escritor. Não é a toa que o Prêmio Nobel de Literatura, este ano, foi para o turco Orhan Pamuk.
Paulo Coelho na Academia de Letras e na sala de aula Italo Calvino com Seis (cinco) Propostas para o Próximo Milênio me conta sobre Medusa e Perseu, lendas, fantasia, o carnavalesco e posso fazer uma certa diferença entre Anaïs Nin e Hilda Hilst. De novo as teorias são bem diferentes uma das outras e literatura erótica continua na margem. Mas onde está o centro, onde está a margem? Silviano Santiago X Harold Bloom.
Olha bem nos meus olhos e me diga: por quê mais uma antologia? Todo mundo escreve e está bem espalhado pelos continentes com sua língua, com seu sotaque, com a vivência cultural específica. É possível mapeá-los? Vinde a mim, GPS literário! Bandini que não é carne, nem peixe nem flor que se cheire, no quarto de hotel, pensando em Camila, escreve, escreve assim como eu, como você. Editoras brigam pra sobreviver e escritores brigam pra serem bem distribuídos enquanto Paulo Coelho pipoca pelas estações de metrô em São Paulo a preços populares. Por isso os discursos – de direita e de esquerda – são tão iguais. Nenhum deles se importa com nada... além do próprio umbigo.

giovedì, novembre 02, 2006

Cenas do cotidiano da cidade na exposição São Paulo a Lápis,
de Marcelo Senna
foi o destaque em novembro de 2006
no Restaurante Consulado Mineiro da Praça Benedito Calixto

martedì, ottobre 24, 2006

phBarrox


edição#47
JULIA PORTO
produção Rita Santilli
assistente Camaleoa

mercoledì, ottobre 18, 2006

phBarrox
Empório das Gerais
agora junto ao restaurante Consulado Mineiro da Cônego.
tem artesanato, bordados, cachaças e doces típicos de Minas, tudo ali na Cônego Eugênio Leite quase esquina com a rua Pinheiros.
Informações:
(11) 3081-0927.

martedì, ottobre 17, 2006


JAZZ
QUANTO MAIS VELHO MELHOR
por Rebecca Navarro Frassetto
O cheiro da noite pairava na frente do cemitério, feliz da vila onde ali JAZZ uma balada de outono-primavera-verão.
Havia quem ia e vinha pra ver os caras entrarem ou tocarem ao som do vinho que o outro cara nos ofereceu ali mesmo na porta, no canto da boca da boca seca que pensava na pedida do banco, balcão, cotovelo no bar!
Quatro anos sem parar! Sem pares. Nem pares. De repente alguém com charuto sabor chocolate veio nos saudar confundindo o cheiro da noite, já que você não está em outra e nem pretende estar. Quem ficou teve a cadência do bar que sabe do fim de tarde, que entende da noite, dos cantores, dos amantes do jazz. Quem ficou sabe bem das horas, daquelas que passam ao som de Lanny, Aluá Nascimento, Renato Consorte, Thiago Righi, Beto Bertani, Pollaco, Projeto Fuzuê, Silvio, Galucci, Ivan Paiakan, Guto Brambila, Bossa Sampa e tantos outros que quando você menos espera estão ali pra te surpreender. Quem chegou, já veio diferente. Veio músico de Paris, do Louvre, da Torre Eifel. Quem entrou tinha barba, bigode, cavanhaque, guitarra, bateria, trompetes e saxofone, veio de mão dada, de coração batendo mais forte, de saia, de esmalte vermelho e unhas por fazer. Quem esperou do lado de fora fumou um cigarro e, no lado de dentro até o intervalo era bom de esperar.
O Teta foi desses que transformou a noite da cidade e os arredores do cemitério em algo melhor, algo de charme avec Brasil, algo entre o licor e a cachaça a poesia e a piada bem dita. Não é a toa que vale celebrar quatro anos, seis meses e mais alguns dias de um bar que desde sempre ofereceu sua graça de graça instigante e melhorou com o tempo só pra gente gozar dos bons momentos ainda que seja num bate papo à beira da porta do lado de fora com a alma por ali, viva no meio do cheiro da noite em uma noite qualquer.

serviço:
TETA JAZZ BAR
r. Cardeal Arcoverde
(em frente ao... adivinha!).
maiores informações confira a programação diária do Teta
na página 2 da versão impressa
deste (também) irresistível mensário

CRÔNICAS DA CAMALEOA
Letras em Cena
Fiz a peça como se fosse uma brincadeira, foi a frase de Elias Andreato durante o bate-papo depois da leitura de Mãe é Carma, um dos textos teatrais lidos no projeto Letras em Cena que vem sendo apresentado todas as segundas no MASP. Brincadeira, assim como as sandices bacanas de Cage no piano preparado, que deu muito certo e não é exclusividade de um momento apenas, não, é um conjunto que começa desde a elaboração do projeto que surgiu com a idéia de Clóvis Torres e Marina Mesquita.
Porque a motivação inicial era essa de se reunir para ler, pelo simples prazer da leitura e não para discussões filosóficas e técnicas sobre teatro. Clóvis e Marina programaram uma agenda que proporciona ao público que gosta de teatro saber um pouco mais sobre o processo de criação dos autores e estes a apresentarem seus trabalhos, suas propostas de roteiro. Uma leitura de um clássico da dramaturgia universal, um sucesso de público nos palcos brasileiros, um convidado contemporâneo – de vários estados do País – e um dramaturgo paulista. Ao todo são dez trabalhos de cada módulo ao longo de nove meses de duração do projeto.
E por aí vai a liberdade de fazer arte, brincando para que a dona-de-casa possa sair de sua rotina e descobrir um mundo que até então era desconhecido. Há satisfação nos olhos de Clóvis e Marina e há emoção em quem vai e assiste a leitura, assim como aconteceu com Patrícia que ao falar do texto de Andreato se emocionou e lá de onde eu estava eram visíveis as lágrimas da atriz Claudia Missura pela morte de sua personagem Cida.
Letras em Cena é um projeto que caminha por si só, talvez por conta desse espírito de leveza e compromisso que toda criança tem com seu brinquedo, e já levou atores como Paulo Autran, Rosi Campos, Cida Moreira, Karin Rodrigues, Lima Duarte e tantos outros que lá estiveram e estão por aparecer pelo simples – de novo – gosto da diversão, do encontro de amigos. Ninguém recebe cachê. Clóvis e Marina não estão sentados num banco de praça reclamando falta de patrocínio ou esperando a aprovação do projeto pela Lei Rouanet. E quando sair – e é preciso que isso aconteça – será porque o projeto tem vida própria não exclusivamente por apelos ou conchavos político-culturais.
O interesse pelo projeto Letras em Cena também é perceptível no site que conta com 135 comentários e 30 mil visitas diárias. Marina conta que só durante uma semana recebeu 200 cadastros de pessoas que querem acompanhar a programação semana a semana. Ainda há grupos de escolas, de jovens do ensino médio, que depois de participarem da leitura produzem seus próprios roteiros.
Muito mais do que isso são os aplausos no final da leitura e o público que levanta tomado por tanta alegria e aplaude sem parar porque entendeu, porque se emocionou, porque interagiu num processo – que a princípio parece tão simples – no qual ele é o mais importante. Somos o que experimentamos. Clóvis e Marina proporcionam esse encontro, de graça, sem pretensões mesquinhas por isso ouvem com muita atenção o que cada um que levanta o braço tem a dizer e respondem e explicam e se organizam para que as colocações sejam democráticas.
Então se você estiver numa segunda cansado de conversa fiada por aí ou quiser um programa inteligente e diferente não deixe que o barulho da cidade te arraste desnecessariamente até sua casa. Aproveite e caminhe e olhe nos olhos das pessoas que andam apressadas pelas calçadas, que saem ligeiras dos metrôs e ligue para os amigos e sugira um encontro na Paulista, na frente do MASP, às 7h (porque é bom chegar meia hora antes), para chorar um bocado, para rir muito a ponto de doer o estômago porque a vida, meu irmão, não é só trabalho, nem só dinheiro. A vida é pura diversão.

As leituras dramáticas do Letras em Cena acontecem às segundas-feiras a partir das 19:30h
no Grande Auditório do MASP, na av. Paulista.
As inscrições podem ser feitas
gratuitamente pelo sítio www.letrasemcena.art.br
ou ou pelos tels. (11) 3086.4224 e 9635.8599.